Existe um dilema que tira o sono de quem vive de distribuição: cada item parado na prateleira é capital congelado que não vira caixa; mas faltar o produto certo, na hora certa, é venda perdida, quase sempre para o concorrente. O estoque é, ao mesmo tempo, o maior ativo e o maior risco do negócio.
Acertar esse equilíbrio depende do nível de maturidade das pessoas, dos processos e da tecnologia. Quando algum desses elos falha, a conta chega rápido: recursos desperdiçados, clientes insatisfeitos e prejuízo financeiro.
É na gestão dos estoques que esse equilíbrio se resolve na prática: manter níveis adequados para atender os clientes de forma eficiente e precisa, sem rupturas, e, ao mesmo tempo, otimizar o resultado financeiro, medido pelo retorno sobre o capital empregado (ROCE) e pelo fluxo de caixa.
De maneira mais prática, a gestão dos estoques atua como um mecanismo de regulação entre os processos de vendas, suprimentos e distribuição.
Essa regulação se dá por meio do estabelecimento e controle rigoroso de metas de cobertura e nível de segurança dos estoques, para servir de referência no planejamento e tomada de decisão dos gestores.
Quando falamos de estoque de mercadorias, as metas consideram fatores como prazo de entrega acordado com o cliente, influência da concorrência, tipo de produto (perecível ou não), sazonalidade, capacidade de distribuição e fôlego financeiro da empresa (disponibilidade de caixa).
A partir dessas metas, é necessário um controle sistemático e frequente da saúde dos estoques, identificando a parte saudável (itens de alto giro) e a parte não saudável, ou seja, itens de baixo giro ou produtos tipo B, também conhecidos como “rabo de jacaré”, que são itens vendidos com descontos, fora de linha, bloqueados por defeitos e pontas de estoque.
Os produtos tipo B devem ser reduzidos ou eliminados do estoque por meio de campanhas de liquidação (redução de preços) ou retirada do portfólio. Esse tipo de ação tem impacto direto na redução do capital empregado.
Até aqui, tratamos da saída: o estoque de mercadorias, que o cliente enxerga. A outra lente sobre esse mesmo estoque está na entrada, ou seja, na reposição e na relação com os fornecedores.
Na reposição, as metas de estoque consideram o impacto da falta na venda (ruptura e cliente perdido), o risco de abastecimento (lead time e atrasos do fornecedor) e o grau de dependência de cada fornecedor, sobretudo quando há fonte única. Com base nesses parâmetros, definem-se:
- Estoque de segurança
- Ponto de ressuprimento
- Estoque mínimo
- Estoque máximo
Estoque alto demais significa mais capital empregado e maior exposição à obsolescência e vencimento; estoque baixo demais expõe a empresa à ruptura e à perda de venda.
Por isso, tão importante quanto escoar o estoque encalhado é não recriá-lo: disciplina na compra para não superdimensionar pedidos, atenção a itens próximos da obsolescência ou do vencimento e, quando o encalhe já existe, um plano de escoamento gradual que proteja a margem sem derrubar o preço de forma abrupta.
Quando uma empresa realiza, de fato, uma Gestão de Estoques Inteligente, o seu estoque otimizado permite reduções no capital empregado em mercadorias, aumentando o ROCE e impactando positivamente o fluxo de caixa.
Com base em mais de 3.500 projetos executados em 25 países, a experiência do Aquila permite afirmar que é esperado um aumento de 0,8 % no valor do EBITDA a cada redução de 1 p.p. no estoque não saudável (itens sem giro, produtos tipo B).
Em um mercado cada vez mais dinâmico, em que a concorrência disputa ferozmente cada centavo de margem, a gestão inteligente de estoques deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar um pré-requisito de sobrevivência.
Quem domina esse equilíbrio protege o caixa sem comprometer o atendimento e transforma o estoque em alavanca de resultado.
Autor: Marcel Goulart
marcel.goulart@aquila.com.br




